Zona Quantum

Episódio 1 – Tudo que está em partes

“Quando você vê o espaço não consegue ter uma noção exata do quão longe as coisas estão umas das outras. Todas elas, estrelas, planetas, sistemas, galáxias. Tudo parece mais próximo quanto mais longe estamos deles, mas à medida que nos aproximamos, eles se distanciam, escapam, fogem de nossos olhos. Quando eu era garoto, achava que podia chegar às estrelas num avião. Eu cresci e vi que era mais complicado, mas não desisti de voar. Meu avô brincava dizendo que eu não me chamava Jonah à toa, que eu podia entrar e sair da boca de um grande peixe . Eu simplesmente não desistia.
Bem, eu tive meu avião, e por uma ironia do destino eu voei com ele até as estrelas... e descobri que dentro do peixe tinha um labirinto.”
Próximo ao sistema central, onde se destacava a estrela Forso, fica um conjunto de planetas habitáveis em vários graus que compõem parte dos mundos do Império Shaprut. O grande império que compõe um dos cenários existentes dentro do que eles autodenominam de Sedit – o Labirinto.
Não é fácil definir o Labirinto. Era muito para a cabeça de Hurricane até aquele momento. Por muito tempo foi chocante, mas agora só era complicado demais para definir numa única frase. Ainda estava tentando se acostumar e, quanto mais sabia, mais se revelavam aos seus olhos coisas fenomenais, e as últimas tinham sido bem confusas.
No momento ele estava num dos planetas regenciais próximos da estrela Forso. Nos planetas regenciais é que aconteciam as coisas importantes, pois eram por eles que passavam os Danuu, príncipes regentes e as Shaprut Tamaris As’Shatiff Danuu, como eram conhecidas solenemente as sete imperatrizes que governavam o Império. Pelo menos era assim que todos acreditavam; tudo realmente importante era decidido nos planetas regenciais. Hurricane tinha suas dúvidas, agora.
Na verdade, tinha dúvidas demais. Em um momento estava em seu avião, numa madrugada chuvosa de 1936, fazendo uma escolta importante. Agora estava ali. Quanto tempo passara desde a singularidade que o jogara do meio de uma missão até algum ponto do universo que ele nem imaginava onde ficava? Não tinha a noção exata. Pareciam-lhe meses, talvez um ou dois, mas ali o tempo era contado de outra maneira. Ali o tempo era algo com outro peso e valor, era o motivo de uma guerra entre três civilizações.
Quando seu avião estremeceu na tempestade e foi engolfado numa escuridão inexplicável para, em seguida, cair num mergulho sem controle, ele não conseguia ter ideia do que estava acontecendo. Fora sugado. Sugado e lançado no meio do “nada” espacial. Como estava vivo? Ele fora pescado, ou talvez cuspido pelo peixe que o engoliu. Preferia pensar assim, era uma alegoria boa para explicar o que lhe acontecera, embora desconfiasse que ainda estivesse dentro do peixe. Levou tempo para entender que do “outro lado” havia alguém para pegar o peixe, e que o mantivera vivo. Esse “alguém” eram os chnoubis, os únicos capazes de monitorar as singularidades do Labirinto. Eles o recolheram e rapidamente o levaram para um local onde pudesse ser cuidado. Pelo menos lhe explicaram assim. Lembrava muito pouco. Seu primeiro contato visual foi chocante ao ver seres que lembravam humanos, mas tinham tons de pele bastante variados, ausência total de pelos e protuberâncias ósseas na cabeça. Todos muito cuidadosos e silenciosos. Quantos ataques de pânico ele teve? Talvez uns três ou quatro. Era meio vergonhoso lembrar, mas foi pacientemente deixado só e cuidado. Achava que depois do quarto surto foi que notou o homem no quanto do grande quarto. Parecia bastante com um quarto comum, mas sem janelas, suavemente iluminado e agradável. Lá dentro só havia o leito, ele e o visitante. Nem conseguia divisar a porta, embora estivesse lá. Só olhava para o visitante, parado ali. Muito tranquilo, muito seguro, e sim, muito humano! Era isso que o tranquilizava; parecia um humano. Sim, isso!
Será que estivera lá antes? Não notara das outras vezes. Então ouviu a resposta inesperada à sua pergunta.
-Sim, todas as vezes.
-Está vendo minha boca se mover? – ele sorriu suavemente.
Hurricane observou aquilo enquanto ele repetia a pergunta. Não parecia se mover. Era na sua cabeça, estava falando diretamente com sua mente. Telepatia? Era isso? Aquilo não o assustou, por incrível que fosse. Agora sentia algo mais. O visitante emanava algo como uma frequência muito tranquilizadora e ele se lembrou que depois de seus ataques de pânico entrava numa espécie de torpor e dormia. Agora aquilo parecia fazer sentido.
-Sim, foi isso. – ele confirmou sem que Hurricane pedisse formalmente – Aplaquei sua intranquilidade. Era o possível a ser feito, no momento. Você está bem, agora.
-Sim, eu creio. Se puder ser definido assim. – ficou olhando ao redor – Mas que tipo de lugar é esse? Eu nem sei por onde começar a perguntar, mas acho que isso aqui não é nazi ou coisa que o valha... – ele observou o visitante um pouco mais. Parecia humano, mas por um segundo a certeza de que não era o invadiu. Contudo, não houve pânico agora. Era como uma camuflagem para ele não se sentir ameaçado. Então percebeu que o visitante não estava mais no canto da sala. Ele já estava ao lado de seu leito, e nem sequer o viu se mover! Ele se deslocava de um modo impossível, mas nunca era agressivo ou invasivo. Com toda aquela habilidade ele percebeu que o visitante tentava se adaptar a ele, não ser hostil ou ameaçador. No momento seguinte olhou seu rosto com cuidado e um vislumbre de lembrança o fez soltar uma inesperada risada. O visitante apenas sorriu.
-Por Deus! Você é John Clifford! Era o jardineiro da minha escola! Você o está imitando... – e teve de parar para rir um pouco mais.
-Era alguém amigável e de confiança em suas lembranças. Você até que levou tempo para lembrar-se dele.
-É mesmo. Eu... eu não pensava nele há muitos anos. – Hurricane observou aquilo. Encontrar alguém de suas lembranças teria sido uma tarefa fácil? Perdendo os pais e uma irmã cedo e vivendo com um avô solitário, para ele, o velho Clifford fora alguém bem vindo dentro da escola. Um amigo que lhe fazia companhia nas tardes frias de Outono. Tinham longas conversas enquanto varria as folhas do extenso gramado ao redor do prédio. Sem esposa, sem filhos, Hurricane não tinha muitos contatos e, nos anos da guerra, seus companheiros próximos tinham se tornado os outros pilotos. Ninguém em especial. Sua vida parecia uma jornada um tanto solitária, mas isso nunca fora algo desagradável. Sua sensação de desapego era natural. Não chegava a ser um antissocial, mas apenas um observador sereno - Então é assim? Você se mimetiza ou algo assim para não me assustar? É como os outros? Aqueles com... – fez um gesto como chifres na cabeça.
-Protuberâncias ósseas... – explicou.
-Isso.
-Não sou um shaprut. Sou um chnoubis.
-Um o quê!?
-Eu posso lhe mostrar o que aconteceu com você, primeiro? Por favor.
-Certo. Vamos a algum lugar? – fez um gesto de sair da cama, mas o visitante tocou suavemente no espaço diante dele e Hurricane parou. Sentiu algo como uma grande onda de energia macia e agradável bater nele, para mergulhar num turbilhão de dados.
O vôo, a chuva, um impacto em algo que não era físico, um repuxão, muita, muita luz, o desfalecer. A voz que repercutia agora na sua mente explicando uma singularidade como tantas outras ali. Ali havia muitas, o tempo todo, se movendo, criando entradas e saídas em átimos de segundo, geralmente sem causas maiores. A dele, a dele o trouxera ali. Agora era um morador do Labirinto. E o outro avião? Escoltava outro avião. Também veio?
O visitante recuou um passo e o fitou.
-O outro avião veio, mas não saiu aqui. Está em outro lugar do Labirinto.
-Deus! Porque não o resgataram? – ele parecia não acreditar.
-Onde ele foi não podemos ir. Não somos bem-vindos. Agora, nesse momento, não é possível.
-E onde ele está? Havia um homem naquele avião. Um homem importante. Era...
-Nós sabemos. Mas agora ele está no meio dos mobaye. Só podemos lhe dizer que está vivo.
-E o outro piloto? Do outro avião?
-Ele não está vivo.
Hurricane se calou um minuto. Oakes era um piloto experiente, mas nada preparara nenhum piloto para aquilo. Então ele fora o grande sortudo, no final.
-Eu sou Chadian, dos chnoubis. Agora você faz parte de Sedit, o Labirinto. Você é um morador, como todos os outros.
-Existem outros como eu?
-Como você, não. Mas há muitos como você.
-Não entendi. – arqueou uma das sobrancelhas.
-Vai entender, com o tempo. O tempo explica tudo, aqui.
-E como posso voltar?
-Não há como voltar do Labirinto, a não ser que ele queira fazer isso.
-Fala como se fosse algo vivo.
-E porque não seria? – Chadian sorriu um pouco.
Hurricane piscou um pouco e observou mais uma vez ao redor. Era um salão bem grande para ser vazio daquele jeito. Muita cor nas paredes e colunas, mas nada para se acomodar. Era Forso, afinal. “Um lugar bem pouco terráqueo”, pensou com ironia. Já tinha imaginado um sofá em algum lugar, mas tinha de se contentar em sentar num canto e apoiar os cotovelos nos joelhos dobrados, enquanto passava as mãos pelos cabelos claros. Tentava alinhá-los de forma que harmonizassem com sua tentativa de alinhar seus pensamentos enquanto esperava. Ali estava em outra situação.
Depois de passar um tempo naquele quarto recebendo as visitas constantes do seu anfitrião e se adaptando a detalhes como a alimentação, finalmente fora tirado dali e descobriu que Chadian tinha sido bem generoso. Fizera algo com sua mente, porque agora o dialeto terrível dos shaprut lhe parecia bem familiar aos ouvidos. Ele não apenas entendia como conseguia falar. Não tinha ideia de como aquilo tinha sido feito, mas era assim.
-Mexeu na minha cabeça?
-Foi o melhor, no momento. Vai precisar disso. Normalmente só facilitaria o aprendizado, mas não agora. – explicou enquanto caminhavam por um corredor e Hurricane ainda olhava para o traje que recebera. O caimento era bom, provavelmente feito para ele. Cores fortes, mas cores fortes eram comuns naquela cultura com gente de tons inusitados – A guerra está se agravando.
-Guerra? – Hurricane empacou no corredor – A guerra... a guerra na Terra?
-Não. A guerra aqui. Aqui também há guerra, Hurricane. Eles estão em guerra. – olhou para a visão do exterior que se abria diante deles e agora podiam ver a paisagem. Hurricane deu um passo para trás. Pensava o tempo inteiro que estava num planeta, mas não. Estava numa estação orbitando um planeta! A vista era fabulosa e o espaço imenso, inclusive a visão daquele mundo mergulhado em tons de jade saltando diante de seus olhos. Ele nunca vira um planeta do espaço. Era uma sensação espantosa e ficou por alguns minutos absorvendo todo aquele espetáculo visual. Era muito bonito. Pensou na Terra, deveria ser igualmente linda.
-Ela é muito bonita, mas esta é esverdeada. A sua é predominantemente azul.
-Será que um dia irão vê-la assim?
-Sim, já a viram.
-Já? Mas...
- Tempo, Hurricane. Lembre-se que aqui é o Labirinto e nós o monitoramos. Podemos ver algumas probabilidades, tanto do que você considera passado como futuro, mas isso não é algo que acontece sempre. – falou sem tirar os olhos da paisagem.
- E... quem venceu, você sabe, a guerra?
-Guerras se vencem? – ele silenciou e Hurricane o acompanhou. Tinha coisas que era melhor não saber, ainda.
Pela primeira vez ele observou o semblante de Chadian e notou leves mudanças. A velha imagem do jardineiro já não era necessária e logo ele poderia ser ele mesmo, ou o que os shaprut estavam acostumados a ver. Como ele realmente seria?
-Em outro momento você verá. – voltou o rosto e sorriu para Hurricane.
-Diabos! Eu não me acostumo com isso. – bateu com o dedo na cabeça – Você disse que não há tempo para aprender?
- Não posso ficar aqui por muito mais tempo. Você ficará sob os cuidados dos shaprut, mas estarei ciente de tudo.
-Por quê? Onde você vai?
-Para lugar nenhum. Só não estarei aqui. Você precisa aprender o máximo que puder, pois há uma grande guerra em curso aqui.
-Essas coisas me são familiares. –ironizou.
-Nada que verá aqui será igual ao que viu. – ele o encarou – Aqui eles lutam por tempo. – fez um gesto para que continuassem caminhando.
- Tempo? Como assim?
-Dentro desta região do espaço existe uma série de singularidades particulares. Uma delas trouxe você, mas existem também as Zonas de Tempo.
-Que seriam?
-São regiões que podem ser delimitadas, onde o tempo funciona em ritmos diferentes. – ele fez um gesto sobre um painel e abriu-se um monitor diante deles, mostrando uma grande área estelar – Você está autorizado a aprender sobre a guerra aqui. Eles o consideram neutro por fazer parte dos eventos do Labirinto, tente lembrar-se disso durante minha ausência. Você é um membro dos chnoubis, recebido e reconhecido por nós.
-Tenho de imaginar que sou um diplomata da Terra, ou algo assim. – brincou um pouco.
-A Terra não significa nada para eles. É só uma palavra. Para os shaprut você é só uma anomalia. Quanto mais tempo puder ser ignorado, mais poderá aprender. – ele o fitou e Hurricane tentou captar algum significado mais profundo naquilo. Isso significava que estava vulnerável no meio de uma raça totalmente estranha a ele, em mundos que desconhecia e no meio de uma situação emergencial.
-Tentarei ser útil.
-Bom. Pode ser que nos vejamos algumas vezes... apenas eu e você, aqui. Entende? – Chadian tocou com a ponta do dedo em sua própria testa e Hurricane ficou um pouco espantado com a ideia, mas percebeu que Chadian estava tentando mantê-lo seguro, mesmo à distância. Sentiu-se visto como uma criança e aquilo pareceu-lhe um tanto desconfortável, contudo não deixava de estar quase naquela condição.
-Podemos fazer isso?
-Se necessário. Entenda que não fazemos parte do Labirinto, só estamos aqui para monitorar as anomalias. Nosso espaço de atuação é esta estação e nossas naves, que raramente são vistas. Os shaprut no início nos temeram, mas logo perceberam que não estávamos aqui para interferir em seu cotidiano. Nós não vivemos entre eles como vocês compreendem, mas você está numa posição de integração inevitável, no momento.
Hurricane concordou com a cabeça, mas começava a detestar o costumeiro “no momento” de Chadian que geralmente significava “aguente firme”.
-As Zonas de Tempo são extensas nessa região e abrangem diversos sistemas locais, inclusive esta e esta região – apontava com o dedo para os mapas estelares no monitor que se expandiam cada vez mais, à medida que sua mão se movia.
-Mas isso tudo é muito grande. Quantos planetas habitáveis existem?
-Locais, são cento e cinquenta e três espalhados em vinte e dois sistemas. Desses, o Império engloba seis sistemas principais com cento e dezoito planetas no total, dos quais quarenta e oito são os habitáveis, mas apenas quinze apresentam civilizações shaprutianas desenvolvidas, cidades compostas e interligadas. Os outros são usados como bases ou pontos de extração, assim como alguns inabitados. Existem também pequenos sistemas, como este em que estamos que são usados apenas como referência de navegação.
-Mesmo assim é um bocado de planetas...
-Nem tanto, mas a riqueza maior deles está na localização. Os Shaprut, de forma estratégica, se expandiram para tomar todos os sistemas que ficam numa Zona de Tempo chamada por eles de Menahun. Nessa região o tempo corre de forma muito devagar e permite que o ciclo de vida deles seja mais longo.
-Que seria?
- Sem interferência poderiam viver em média três mil anos.
-Três...!? – ele não terminou a frase. Agora sim, se sentia uma criança – O que significa sem interferência?
-Vivendo um ciclo natural, sem recursos artificiais que prolonguem sua existência.
-Eles fazem isso?
-Existem alguns meios, mas poucos podem fazê-lo com bons resultados. Isso pode prolongar consideravelmente suas vidas em mais dois mil anos, ou até mais.
-E o que fazem com tanto tempo? Digo, é muito tempo, não? Para que precisam de mais?
-Você pensa como quem vive menos de cem anos, em média. – Chadian sorriu – Os valores de tempo mudam consideravelmente de acordo com o tempo de vida. Se você vive cem anos, pode desejar vivem duzentos porque descobre que cem é pouco e assim por diante. O ritmo de uma existência também dita o ritmo das ações. Vai perceber com o tempo que sua urgência é muito maior que a deles, impregnado que está da sua percepção do tempo da Terra.
-E tem outros vivendo nessas zonas?
-Não. As Zonas de Tempo Menahun estão nos limites do império. Eles têm total controle das regiões... até o momento.
-E isso está causando a guerra?
-Eles creem que sim. Os mobaye ficam nesta outra região, bem afastados. Os shaprut não tiveram contato com seus vizinhos até pouco mais de um ciclo atrás. Entenda como ciclo algo por volta de três mil anos. Os mobaye, ao contrário deles, dominam uma região do espaço bem mais inóspita, mas não são originários dela. Eles são uma raça migratória e se estabeleceram, dominando os sistemas mais distantes dessa região mais tranquila do Labirinto por volta de cinco mil anos atrás. Seu estilo de vida migratório criou uma cultura altamente tecnológica com padrões totalmente artificiais, onde eles utilizam de todos os recursos disponíveis para a manutenção da espécie.
-Então eles não vivem tanto quanto os shaprut?
-Não. Eles ampliam artificialmente seu tempo de vida, mas geralmente nunca ultrapassam os mil anos.
-Isso me consola um pouco. – ironizou.
-A questão é que seus recursos de manutenção e perpetuação da espécie estão se esgotando. Devido às inúmeras combinações durante esses milhares de anos, sua base original já está muito desgastada. Eles precisam de outras matrizes para perpetuar sua cultura e precisam de tempo.
-Então os mobaye estão querendo os territórios dos shaprut? E o que seriam outras matrizes? E como fazem isso?
-Eles precisam de outra espécie de base. Eles usam uma coisa denominada engenharia biológica para fundir espécies. Na sua época isso já é conhecido, mas ainda é bem pouco avançado em detalhes.
-Os shaprut seriam a nova base? – concluiu – Por isso a guerra?
-Os mobaye não estão em guerra direta com os shaprut. Isso é o que necessitam para se perpetuar. Quem o império está enfrentando vem daqui – apontou para outro ponto na tela e mostrou uma região bem afastada. – No Labirinto temos pequenas zonas chamadas de Nuvens ou Nebulosas Devoradoras de Tempo. Pelo nome não preciso lhe dizer o que acontece lá dentro. Mapeamos diversas. As Nuvens são de pequeno porte e são evitadas nas rotas espaciais, mas as Nebulosas tomam regiões inteiras, e de lá vem os cibernéticos, como os shaprut os chamam.
-Tem algo vivo ali? Eles vivem dentro desses lugares?
-Sim, mas não rastreamos internamente as Nebulosas. Não sabemos o número de singularidades que podem existir lá dentro, contudo parecem indicar que, como um todo, o tempo ali é extremamente acelerado. Se existem bolsões internos, são imperceptíveis. Talvez muito pequenos. Essa espécie surgiu bem recentemente, e trouxeram o estado de guerra para o império. Eles os chamam assim porque suas características são basicamente artificiais.
-São...máquinas?
-Definitivamente estão vivos, mas não são como nenhum dos que estão aqui. Suas estruturas foram projetadas para aguentar os efeitos das nebulosas e o que os shaprut sabem é que tiveram seu primeiro contato com os mobaye. Aparentemente chegaram num acordo comum sobre adentrarem e ocuparem a Zona Menahun. O território mobaye se tornou a trilha usada para a passagem dos cibernéticos que trafegam usando o sistema Legionário.
-Sistema Legionário? – era impossível para Hurricane imaginar aquilo, num primeiro instante – Como uma legião... realmente?
-Em certos aspectos – Chadian sorriu – Eles não usam naves, eles são as naves. Eles se interligam para viajar no espaço criando uma estrutura que pode tomar inúmeras formas de acordo com suas necessidades. E isso pode ser um grande problema para os shaprut, acredite. O primeiro contato veio sem aviso e devastador para eles. Os cibernéticos vieram e o que ocorreu foi uma amostra de que o futuro pode ter eventos bem imprevisíveis.
- ...
Era complicado para Hurricane imaginar aquela espécie numa primeira tentativa. Algo que podia se juntar e formar estruturas não estava entre suas classificações humanas conhecidas de “vida inteligente”. Contudo, tentou manter sua mente aberta às possibilidades, imaginando que futuramente poderia entender melhor o que lhe estava sendo explicado. O contato, como Chadian definiu, pareceu a Hurricane uma entrada bem agressiva e inesperada. Os shaprut dominavam seis sistemas que tinham o nome de suas estrelas; Forso, Merran, Bodak, Selange, Tian Shataf e Imakian. O primeiro a receber a visita da nova espécie foi Imakian. Acostumados a seus ritmos protocolares, os shaprut assistiram com espanto e maravilha a aproximação de uma estrutura de proporções estelares que saiu das fronteiras mobaye e rapidamente se desmanchou em bilhões de microestruturas, criando um primeiro cinturão ao redor da estrela. Tudo em questão de dias! O que era espanto e maravilha se tornou medo e horror ao perceberem as possibilidades. A imperatriz regente do sistema, Kentopaki Tamaris, pediu auxílio das Regências de Defesa após esgotar todas as tentativas de contato com a espécie visitante.
Hurricane ouvia a narrativa com espanto crescente, e involuntariamente a adrenalina começou a correr em seu corpo ao imaginar as probabilidades. As microestruturas não eram nada mais que os próprios seres da espécie se reagrupando para formar, finalmente, dois cinturões, que girando em sentidos diferentes pareciam se alimentar da energia da estrela. Dali, eles podiam gerar qualquer coisa. Tentou imaginar o horror de Kentopaki ao se dar conta dos riscos melhor do que ele mesmo poderia fazer. Era seu mundo ali. Do espaço ela viu o gigantesco trabalho daquela espécie em poucos dias, e seu coração se encheu de algo que não estava acostumada a sentir: medo.
As Regências de Defesa se mobilizaram, vindas dos sistemas vizinhos, se reagrupando cautelosamente na beira do planeta regencial de Imakian. Esperando. Não havia sinal de contato, não havia sinal de agressividade. Assim que os cinturões se formaram, os cibernéticos ficaram ali, apenas orbitando ao redor da estrela. Naquele sistema seus cinco planetas continham cidades muito antigas. Milhões de formas de vida de vários níveis, e uma população de 10 bilhões de pessoas espalhadas neles em estruturas de grande, médio e pequeno porte. Imakian não era o sistema com maior população, mas possuía planetas de formação antiga e uma grande bagagem civilizatória. As imperatrizes do sistema Imakiam eram conhecidas pela defesa ferrenha das bioestruturas destes. Eram os mundos mais preservados e em maior harmonia. Chadian explicou que cada imperatriz recebia sempre o mesmo nome ao subir ao seu posto, e esse nome representava sua essência. Kentopaki significava “Espírito da terra”.
A imperatriz subiu a bordo das naves regenciais e durante todo o processo monitorou os cinturões. Para sua intranquilidade, eles não pareciam ter intenção de sair dali tão cedo, mas também não pareciam estar fazendo mais nada. Inicialmente, os sistemas só registravam o que parecia ser uma drenagem de energia do sol pelas estruturas, mas foi nesse momento que aquilo aconteceu. Os cinturões mantiveram-se girando e a estrela começou a reverberar de uma forma estranha. Os equipamentos detectaram “sons” vindos da estrela. Suas protuberâncias se elevaram rapidamente como num gesto expansivo, mas não houve tempo.




Em questão de segundos, o inacreditável aconteceu.
A estrela desapareceu.
O sistema Imakian ficou mergulhado na escuridão do espaço.
O grito de Kentopaki ecoou e deu vida a exclamação muda de todos os shaprut que estavam ali, testemunhando o acontecido. O sistema Imakian não tinha mais sua estrela.
O que era exatamente aquilo? O que acontecia quando uma estrela sumia? Hurricane nunca tinha pensado em algo naquele nível. Ele conhecia os céus da Terra e percorrera muitos caminhos com os aviões que pilotou, mas nunca olhara para além de seu mundo de ar, nuvens e estrelas orientadoras. Nunca elevara sua cabeça tão alto como agora, como naquele momento, onde via um planeta diante de seus olhos, do espaço.
-Mas como diabos isso pode ser feito? Isso é impossível. – ele procurava por uma explicação na expressão de Chadian.
-Minha experiência diz que “impossível” é uma palavra muito aplicada a tudo que não pode ser explicado ou compreendido imediatamente por vocês. – comentou sem perder a naturalidade – A estrela Imakian não está lá e você está aqui. São acontecimentos.
-E o que aconteceu com os cibernéticos?
-Os cinturões se desagregaram em minutos, mas o choque do impacto foi tão grande que os shaprut simplesmente não sabiam o que fazer. Eles não haviam sido atacados diretamente, e o que se podia afirmar era que os cibernéticos haviam feito sua estrela desaparecer. O Primeiro Comando Shaprut por fim deu ordem de captura quando percebeu a movimentação das unidades para tentar se reestruturar como nave, mas o que iam exatamente fazer, não tinham certeza. Kentopaki estava tentando conseguir dados dos seus planetas. Estavam todos ali, imersos na escuridão do espaço. – continuou – Por fim, uma ordem de outra imperatriz, Tasafat’shidu Tamaris, veio. Destruir as tentativas de formação dos Cibernéticos. Ela temia que eles tentassem fazer o mesmo com os planetas do sistema.
-Isso é... inacreditável. – ele não parava de olhar para o planeta. Na Terra os efeitos seriam catastróficos. E ali? Como era?
-Os efeitos são os mesmos, com a diferença de que seu povo nem saberia de onde veio o ponto de origem. Vocês desconhecem totalmente seu meio. Gostam da ideia de isolamento. Dá-lhes uma falsa sensação de segurança e poder. – Chadian prosseguiu – Quando uma estrela se apaga, o primeiro efeito é o fim da tração gravitacional, e na sequência o resfriamento planetário. Isso traz, consequentemente, uma corrida para tentar salvar as espécies, e essa se tornou a obsessão de Kentopaki. Assim que ela viu aquilo, percebeu a morte iminente do sistema. O Primeiro Comando iniciou uma operação para desagregar a formação, mas os cibernéticos não revidaram. Apenas se espalharam em milhares e milhares de fragmentos como unidades e depois tentavam se reagrupar com os que não tinham sido atingidos. Eles não estavam interessados nos shaprut ou em sua retaliação. Apenas queriam se reagrupar, indiferentes ao ataque.
-Eles estavam tentando ir embora?
-Foi o que Kentopaki imaginou, e por isso deu uma contraordem. Ela fez o comando cessar o ataque e iniciou uma operação com prioridade para iniciar a evacuação das cidades. Isso causou um mal estar porque ela cancelou a ordem de uma outra Tamaris, o que nunca havia ocorrido antes.
-Foi uma decisão de sobrevivência. Ela arriscou.
-Ela sabia disso, mas o comando relutou um pouco em obedecer a uma contraordem dessa magnitude. Kentopaki arriscou a possibilidade de que os cibernéticos tinham pegado o que queriam e estavam partindo, como de fato o fizeram. Eles simplesmente ignoraram os ataques e se reagruparam, mesmo com centenas de baixas, para formar sua estrutura primitiva e voltar de onde vieram. Os shaprut nunca tinham visto nada parecido. Aquilo os deixou desnorteados, mas Kentopaki não tinha tempo a perder. Seu sistema estava mergulhado na escuridão, o que nos leva ao momento atual.
-E, no momento...?
-Um resgate de proporções planetárias se fez no Sistema Imakian. Enquanto os cibernéticos partiram e foram rastreados até o território mobaye, a Ordem Imperial Shaprut enviou um aviso para estes últimos, alertando das consequências de protegerem os primeiros. Deve imaginar que os mobaye se recusaram a interferir e Tasafat’shidu Tamaris declarou alerta de guerra. As Regências de Defesa estão se preparando para criar linhas de monitoramento nos limites que demarcam os sistemas destes. Já Kentopaki estará em alguns dias no Sistema Forso, para debater sua contraordem perante o Conselho.
-Você fala como se fosse algo tranquilo.
-Não é. Milhares de pessoas estão morrendo nesse instante no sistema Imakian. Eles não têm como tirar todos e, mesmo tentando, o pânico pode matar mais rápido que os efeitos da ausência de uma estrela. As cidades menores são mais fáceis de evacuar, mas nas maiores há confusão e muitas perdas. As temperaturas caem rapidamente e o alimento escasseia. Kentopaki defende a vinda de mais naves, mas o estado de guerra põe prioridade às ordens de Tsafat’shidu.
-E vocês, não podem fazer nada? Vocês tem essa tecnologia, me resgataram. Não podem ajudar os shaprut?
-No momento, isto não é o que pode ser feito. Pode parecer estranho, mas não podemos interferir desse modo. É necessário ter uma visão maior do panorama, Hurricane, e agora você está vendo apenas uma faceta...
-Pessoas estão morrendo! – ele o interrompeu – Qual é a parte disso que tem de ser mais compreendida?
-Pessoas estão escolhendo morrer. Você ainda não compreende esse todo e apenas vê a consequência final, não os meios pelo qual ela se tornou possível. – Chadian se manteve inalterado. – E eu ainda continuo captando sua indignação, entre outras coisas.
Hurricane parou para sentir seu coração disparado. Erguera sua voz para Chadian e estava tenso. Ainda não compreendia muito bem tudo aquilo. Talvez estivesse certo, talvez Chadian estivesse certo. No final ele se esquecera do óbvio; Chadian não era humano e talvez sua visão fosse totalmente diferente da dele naquela situação. Seus valores poderiam ser outros.
-O medo é um forte impulsionador de ações que podem gerar consequências desproporcionais e nós, chnoubis, sabemos que nossa interferência, que pode ser bem-vinda no começo, logo se tornaria fonte de medo para estas pessoas. Eles ainda não nos compreendem totalmente e nem você. Nossa condição para ficar aqui é a não interferência. Resgatar você foi permitido por se tratar de algo fora do padrão, mas até mesmo você estar aqui muda as coisas... se me compreende. – ele sorriu.
Ele fitou o chnoubi por alguns segundos e a sensação de que ele queria dizer algo mais ficou suspensa no ar. Seria Hurricane um elemento que traria mudanças ali? Como ele, um piloto da Terra, com uma tecnologia tão inferior, poderia fazer alguma diferença naquele lugar? Tudo parecia muito confuso, mas esperava que alguma coisa viesse com o tempo, não importava o ritmo que tivesse.
E o tempo de Hurricane na estação foi longo depois que Chadian partiu dali. Confinado no lugar, concentrou-se em sua ambientação e aprendizado enquanto pegava as notícias que vinham de Imakian e da Guerra Estelar, como ficou conhecida aquela situação. Tentou se integrar o máximo possível ao lugar e seus habitantes. Descobriu depressa que aquela estação era habitada por poucos shaprut; apenas os que haviam sido autorizados a conviver com os chnoubis para monitorar o que estes faziam ali. Aquele ponto do espaço onde se encontravam era o único lugar onde os visitantes tinham sido autorizados a ficar, no pequeno sistema não habitado no Menahun, com sua beleza primitiva. Agora, muitos shaprut haviam partido para ajudar nos resgates, e a estação funcionava com um contingente mínimo. Sem Chadian, agora seu guia seria outra pessoa. Quando ela apareceu diante da porta aberta de seu alojamento, ouvia aquela voz de timbre intenso e quase infantil.
-Quatamak! – ela lhe falou e Hurricane levou alguns segundos para lembrar que se tratava de um nome. Os shaprut tinham por etiqueta falarem seus nomes antes de qualquer saudação quando ainda não haviam sido apresentados. Consideravam rude alguém falar sem que seu nome fosse conhecido pelo outro - Saudações.
- Jonah Hurricane, mas pode falar só Hurricane. – explicou – Saudações.
-Chadian me pediu para que eu o ajudasse, em sua ausência. – sorriu animada e logo apontou para a cabeça dele – Como é ter pelos na cabeça?
-Hã... – ele foi pego um tanto desprevenido pela pergunta ingênua e deu de ombros – É como ter esses... igual. – apontou para as extensões ósseas na cabeça dela.
- Kafilates – ela explicou.
-Isso. Ter cabelos é como ter kafilates. – pensou por um segundo se seria igual mesmo.
Quatamak tinha uma baixa estatura, como todas as mulheres que vira ali, mas como estas se resumiam a umas três ou quatro na estação, não saberia afirmar se as características físicas delas eram predominantes na espécie. Não quis nem arriscar a idade dela. Usava um uniforme num degradê de cores que parecia ser o padrão para a estação e se deslocava com desenvoltura pelo lugar. Demonstrou ter um conhecimento espantoso, e Hurricane sentiu uma necessidade imensa de aprender onde realmente estava. Ao inquirir sobre como poderia fazê-lo a jovem rapidamente lhe apresentou um sistema de aprendizado e passou alguns dias tagarelando sobre costumes e cultura shaprut. Não foi difícil para ele entender o porquê dela ter sido escolhida para lhe ajudar; era expansiva e tinha muita boa vontade em ensinar. Os outros eram bem mais reservados e, de fato, Hurricane não parecia fazer diferença ali. Ele era quase invisível a maior parte do tempo, e os shaprut estavam muito absortos com os atuais acontecimentos. Quatamak lhe explicava sobre os sistemas e mesmo sendo naturalmente expansiva, ele pôde ver a sombra em seu olhar quando mencionou Imakian. Uma estrela desaparecer era um acontecimento tenebroso, e o tempo estava se acabando. Por mais que conseguissem resgatar as populações, muitos morreriam.
-Me fale de seu planeta. De onde você é? – ele perguntou para que ela se distraísse daquele pensamento terrível.
-Meu planeta natal é o terceiro a partir da estrela Bodak. – ela explicou mostrando o sistema que se abriu diante deles na sala, numa visão 3D – É pequeno, mas tem duas luas, vê?
-Seus planetas não têm nomes?
-Nomes?
-Sim. Vocês sempre falam suas posições em relação à estrela do sistema, mas nunca os nomes. Meu planeta chama-se Terra e em meu sistema todos os planetas tem nome, independente da estrela.
-Mesmo? Que curioso. Não temos nomes. Todos os planetas são o que são em função de suas estrelas. Para nós são uma extensão delas. Todos são parte de Bodak, por isso os citamos por ordem. Chamamos Terceiro Bodak, e assim por diante.
Ele olhou para aquela estrela que pairava diante dele e percebeu toda a força do que havia acontecido aos shaprut. Os cibernéticos haviam dado um golpe terrível naquela cultura ao atacar não seus mundos, mas as mães de seus mundos.
-Vamos estudar um pouco mais sobre transportes, Hurricane? – ela sugeriu.
-Sim, por favor. Eu gostaria de aprender como pilotar aqui. Eu era piloto em meu mundo.
-Você tem boa coordenação. Pode fazer muitas coisas. Ainda está preocupado com seu amigo?
Hurricane a olhou por um segundo e pensou naquilo. A palavra certa seria amigo? Aquele que sobrevivera e estava nas mãos do mobaye, agora quase inimigos declarados dos shaprut? Jörg Kober era um homem brilhante, um físico que estava fugindo dos territórios ocupados pelos alemães. Nos poucos minutos em que conversara com ele, tinha sentido algo excepcional. Suas visões científicas eram assustadoras. Aquilo deveria ter sido uma operação de resgate, mas ele acabara num lugar bem pior, talvez. Aquele homem nunca fora seu amigo, mas tinha esperanças, no fundo, de poder encontrá-lo e, quem sabe, resgatá-lo, finalmente. Essa era uma das coisas que o movia naquele lugar tão diferente da Terra. Começava a ficar inquieto. Precisava ver coisas mais comuns, nuvens, terra, lagos. Precisava estar em solo. Perguntou para Quatamak sobre essa possibilidade e ela lhe respondeu que naquele momento nenhum transporte iria sair dali. Aquilo desanimou um pouco Hurricane, mas seu mal estar foi temporário, pois logo a jovem ouviu um sinal rápido do comunicador e os planetas deram lugar a uma mensagem que estava sendo transmitida. Ele ouviu atentamente as novidades. As fronteiras do Império haviam detectado movimentação no espaço mobaye e parecia que o Sistema Legionário adotado pelos cibernéticos se reorganizara e estava se deslocando para outro ponto da fronteira, seguindo provavelmente para um dos outros sistemas shaprut. No processo, ocorrera um confronto na fronteira quando os shaprut se deslocavam para criar uma barreira e os mobaye entraram abertamente no conflito, disparando contra as Regências de Defesa. Houve perdas e uma nave de combate mobaye fora atingida com gravidade e capturada. Havia um prisioneiro.
-Um? Só um? – Hurricane estranhou. Tinha entendido a mensagem corretamente?
- Sim. Os mobaye usam naves praticamente automatizadas e tem poucas pessoas a bordo, mas o prisioneiro em questão é um Garpian.
-Garpian? E isso seria?
-Um cabeça de comando científico.
- Um cientista... – foi inevitável pensar em Jörg Kober. Saberia algo sobre ele? –Gostaria de vê-lo.
-Talvez tenha sua chance. A nave de carga especial Hogouss que irá leva-lo passará por aqui antes de seguir para o sistema Forso. É lá que ele será interrogado. Se quiser ir a terra, poderá ser levado por eles.
-Assim? Tão simples? Não é uma nave das Regências de Defesa? Eu posso ir?
-Lembre-se que Chadian o resgatou. Faz parte do acordo shaprut neutralidade com os chnoubis. Para nós, você faz parte dos chnoubis, como um membro agregado. Pode solicitar transporte até Forso, mas a partir dali estará por conta e risco, já que não posso acompanhá-lo. Deseja realmente ir?
-Não posso ficar aqui para sempre e tenho de saber que fim levou Kober. Talvez o tal Garpian saiba algo. – o que um cientista estaria fazendo no meio de uma ação de combate nas fronteiras? Tinha certeza que os shaprut estavam tão interessados no cientista quanto ele mesmo. A sua neutralidade como membro da comunidade chnoubis ou sua invisibilidade como indivíduo, poderiam lhe trazer algumas vantagens.
-Então, terá sua chance. – Quatamak concluiu.
A Hogouss não era como Hurricane imaginara. Sua noção de algo com grande poderio militar remontava diretamente aos porta-aviões que conhecera, mas ali os conceitos eram diferentes. Hogouss era pequeno, esguio e escuro. Uma nave feita para ter grande proteção externa, potentes escudos de defesa e grande capacidade de locomoção. Quatamak explicara o conceito de viagem espacial para Hurricane. Algo com relação a saltos espaciais que ele absorvia com grande interesse. Mas agora seus olhos deslizavam pela estrutura da nave, que estava se acoplando a estação para uma parada de vistoria. Era classificada como nave de carga especial por ter essas qualidades e sempre levar os carregamentos de grande importância, fossem pessoas ou coisas.
-Imperatrizes viajam nesse modelo?
-Imperatrizes viajam com toda uma frota, mas usam um modelo mais avançado, equipado com canhões de plasma.
-Reconfortante. Ele não tem armamentos?
-Ele tem armamentos primários. Sua especialidade está em seus escudos e sua capacidade de locomoção, como agora.
-Eu... – Hurricane ia falar, mas parou estarrecido ao ver a nave simplesmente soltar o que seria parte de sua estrutura e se realinhar para o outro extremo, como um barco cuja proa vira popa e vice-versa, mantendo o centro fixo - ...mas o que ele está fazendo?
-Realinhando-se para sair sem manobrar. Hogouss se adapta, mas o centro da nave é sempre o mesmo. Pode até soltar parte da estrutura, caso seja necessário.
-Quantas pessoas vão nele?
-Um oficial de comando, um agente da Regência e vinte oficiais de segurança escoltam o prisioneiro.
-E agora eu. - brincou um pouco.
-Tem certeza que deseja ir, Hurricane? Ainda pode se aprimorar aqui.
Ele a fitou e notou um olhar um tanto preocupado. Quatamak era falante e sentimental. Ele lhe sorriu, condescendente.
-Eu voltarei. Mas antes gostaria de ver o tal Garpian, se puder. Veremos-nos em breve.
Diferente de Quatamak que era comunicativa, ou dos outros na estação que, mesmo praticamente ignorando sua presença, eram atenciosos, o que ele viu quando um grupo da Hogouss desceu na estação foi outra coisa. No primeiro contato que ele teve com o agente da Regência e quatro de seus oficiais, percebeu que os shaprut poderiam ser bem variados fisicamente. Além das cores, as texturas de pele eram mais ásperas em parte da cabeça, com padrões quase reptílicos. Também eram bem mais altos e fortes. A maioria tinha sua estatura e até mais. A reação a sua presença também não foi das mais gentis. Eles o fitavam com um ar entre indiferente e repulsivo. Não pôde deixar de pensar em seus cabelos, mas o olhar do agente lhe era especialmente curioso. Ele o fitava com certo ar de surpresa.
Quatamak rapidamente se apresentou e o agente virou-se mecanicamente retribuindo a saudação.
-Muguenat Shifar, eu a saúdo... e o saúdo. – olhou ligeiramente para Hurricane que prontamente falou seu nome.
Quatamak rapidamente pôs o agente a par dos últimos fatos ocorridos na estação, enquanto caminhavam pelos corredores. Ele observava Hurricane de quando em quando até que este estacou ao ouvir o pedido dele.
-Ele deseja ver nosso prisioneiro? Mas isto não é possível.
-Ele solicita transporte até Forso. – ela explicou. Hurricane estava vendo que ser considerado um chnoubis “honorário” poderia não ser tão vantajoso, mas poderia haver opções que sua dedicada tutora talvez não tivesse percebido.
-Não exibimos prisioneiros a visitantes. Há um grave conflito ocorrendo, caso não saiba... – nesse momento Hurricane se adiantou e usou um tom mais seguro para falar com o agente.
-Estou a par da Guerra Estelar. A propósito, os mobaye têm em sua custódia um humano como eu, e acredito que sendo reconhecido pelos chnoubis como um membro assimilado pela sua espécie, seus direitos em território shaprut se estendem a mim. Tenho, pelo que sei, o direito a circulação livre como civilização neutra dentro do império, e direito a fazer um pedido para requisitar dados sobre o que se relacione ao paradeiro de outro humano.
Muguenat o fitou alguns segundos, como se estivesse a analisar o timbre de voz dele. Hurricane podia sentir certa indiferença, disfarçada naquela expressão diplomática. Não era a serenidade de Chadian, era uma máscara sob a verdadeira face.
-Você parece querer muitas coisas para quem chegou há tão pouco tempo. – falou por fim – A Hogouss o levará até Forso, mas você não poderá ver o prisioneiro. Faça suas solicitações para a Regência, quando estiver lá. – e seguiu caminhando sem esperar os dois. Quatamak fitou Hurricane que deu um leve sorriso.
-Tem algum conhecido em Forso, Quatamak?
-Não.
-Pena. Então eu acho que não terei outra coisa a fazer que ir ao rastro desse prisioneiro. Pensei em fazer alguma visita interessante a algum conhecido seu. – ironizou e a shaprut ficou pensativa – Como se chama a imperatriz que comanda o Sistema Forso?
- Kuarish Tamaris As’Shatiff Danuu, as Águas Infinitas. Os mundos de Forso têm muitos mares, Hurricane... são mundos azuis.
-Como a Terra, Quatamak. Quem sabe me traga sorte. Deseje-me boa-viagem, amiga.
-Que sua jornada tenha boas visões. – ela sorriu um pouco.
Hurricane olhou para a Hogouss ainda visível pelos painéis da estação e esperou que fosse assim. Não havia nada a perder. Agora uma de suas poucas metas era encontrar Kober porque a outra parecia bem pouco provável; voltar para casa.
Entrar numa nave como aquela não era agradável. Hogouss era feita para levar cargas específicas, prisioneiros, mas não passageiros extras. Não havia muitos lugares para se ficar e era preferível estar na cápsula de repouso de que dispunha, a zanzar e ser olhado de forma desconfiada pelos seguranças da Regência de Defesa. Pela disposição das sentinelas não foi difícil deduzir onde estava guardado o prisioneiro, próximo ao comando central. Certas coisas eram iguais em todas as estruturas militares, independente da civilização. Visto que a chance de chegar perto do compartimento onde se encontrava o Garpian era nula, Hurricane optou por se recolher e esperar. A viagem ainda levaria um tempo mesmo utilizando a tecnologia de que dispunham. Hogouss deslizava para sair do sistema local, que era bem pequeno e só funcionava como posto entre outros sistemas do Império, comportando a estação de monitoramento dos chnoubis. Até agora só vira um deles, Chadian. Onde ficariam os outros? Não vira suas naves e estava bem intrigado com várias coisas à medida que aprendia mais. Sentia-se como um saco que estava prestes a ser preenchido por informações e quase não conseguia lembrar-se da Terra. Seria isso o certo? Estar num lugar tão distante e diferente o faria esquecer-se de seu mundo? Seria um efeito do Menahun? O tempo para ele também mudaria?
Via tudo com interesse, mas um senso de perigo parecia rondá-lo. Os shaprut não lhe foram hostis, pelo menos os que conviviam com os chnoubis na estação, mas já sentira certa diferença com os das Regências. Como seria o resto? Estudara o básico de seus mundos, mas milhares de coisas faltavam. Conhecia seus sistemas, mas nada de suas vidas em terra; compreendia como funcionavam suas naves, mas não o que haviam ganhado ou perdido com sua tecnologia; entendia sua língua, mas não dominava os nuances de sua cultura e pelo que sabia, havia algumas variantes da raça em pequenas quantidades espalhadas por aquele império. Era tanto a aprender e só havia duas coisas que martelavam sua cabeça: onde estaria Kober e como uma estrela sumia!?
Enquanto pensava em tudo aquilo, seus olhos foram se cerrando e acabaram por levá-lo a um repouso forçado. Sua mente parou de vagar em tantas coisas e iniciou uma jornada tranquila num campo com vista para um lago sereno. Uma lembrança de infância. Ele caminhava na trilha que levava ao lago e logo viu alguém acenar de um bote. Uma menina com um vestido claro e cabelos feitos em tranças. Era Julie... Julie ali, acenando para ele?
-Ei, Jonah! Aqui – ela ria com seu sorriso largo e feliz. Hurricane olhou para suas mãos e as viu como eram; mãos de um adulto. Aquilo era parte de uma lembrança de infância, mas ele, mesmo ali, era o adulto do presente, de agora. Julie, no entanto, estava morta. Morrera em sua infância mesmo. Por que lembrar-se dela agora? – Jonah! Aqui! – ela repetiu e então ouviu um zunido. Olhou para um lado de onde vinha o som, virando o rosto para o alto. Ele fez o mesmo e o que viu foi a Hogouss despencando do céu, precipitando-se sobre o lago e levando tudo, inclusive Julie, sua irmã.
-Julieeee! – ele gritou, mas a água elevou-se e o cobriu.
“Hurricane” a voz ecoou em sua mente e o fez acordar abruptamente, mas não era a voz de Julie. Era o timbre tranquilo e suave de Chadian. Só seu nome, mais nada. Logo, seus ouvidos foram invadidos por outros sons. O som de algo batendo e um tipo de zunido de alerta. Estava confuso e ergueu-se devagar, olhando ao redor. O recinto onde estava parecia tranquilo, mas algo parecia estar acontecendo. Só não sabia exatamente o quê.
Algo realmente estava acontecendo. Ele saltou da cápsula e caminhou até a porta. Num gesto suave tocou no teclado que a fazia deslizar e deu um pulo para trás ao ver uma sentinela desabar no chão. Tinha caído e estava encostado na porta. Era esse o som que tinha ouvido.
-Mas que diabos está acontecendo aqui!? – ele tocou o corpo e averiguou que estava vivo, mas seus olhos, completamente brancos, mostravam que algo o colocara fora do ar. Seu senso de perigo aumentou progressivamente ao olhar para o corredor e ver outros corpos caídos – mas que droga... - murmurou enquanto caminhava, cautelosamente. Parecia ser o único consciente até o momento. Pensou no oficial de comando. Foi quando ouviu outro som e viu que os corredores começavam a fechar as passagens. Lembrou-se do que Quatamak lhe dissera sobre a nave mudar sua estrutura de lugar, mantendo só o centro de comando e até sendo capaz de dispensar certas partes. Era ali que as coisas deveriam estar acontecendo e não pretendia ficar parado, esperando. Disparou numa corrida contra as passagens que se fechavam, torcendo para não errar o caminho. Não pretendia ficar preso em lugar nenhum.
Só parou ao deparar com a entrada que dava para o comando central. Estava aberta, enquanto as outras estavam se fechando atrás de si. Estava no centro da Hogouss, e o que viu não foi bom. Dali, de onde estava, podia ver o oficial de comando da nave caído num estado bem pior que os outros. Seu pescoço estava torcido, provavelmente quebrado. Quem tinha feito aquilo!? Caminhou devagar e viu o agente da regência parado diante de algo, uma cápsula móvel que flutuava diante dele. Uma cápsula prisão, já tinha visto isso em seus estudos. E o que havia dentro, o Garpian!? Muguenat não parecia estar no controle de si mesmo. Seus olhos estavam brancos, mas suas mãos digitavam algo. Estava tentando libertar o Garpian, ou talvez não soubesse como fazê-lo. Ocorreu a Hurricane que o Garpian, possivelmente, estava controlando-o. Um telepata? Os shaprut não sabiam disso!? E... ele mesmo... não fora afetado!?
Seu instinto dizia que aquilo poderia ficar pior e a dificuldade do agente em libertar o prisioneiro era a deixa para mudar as coisas. Não tinha muitas chances e o risco era enorme, mas sentiu que sua vida não ia valer muito em bem pouco tempo. Aliás, não ia valer nada!
-Eu não conheço a sequência. Não posso abrir isto com as informações que tenho. Eles mudaram os dados por segurança... – Muguenat falava num tom mecânico quando uma sombra o cobriu e um murro o jogou longe para perto dos controles de comando, fazendo-o bater a cabeça e caindo parcialmente entorpecido.
Hurricane pulou diante da cápsula e então o viu. Suas mãos bateram no vidro e ficaram ali, como que grudadas enquanto o observava. Aquilo era um mobaye.
Um ser magro, delicado, mas alto e com uma musculatura forte, num tom pálido, quase leitoso. Sua cabeça tinha um rosto estreito ornado por olhos pequenos, negros e intensos. A parte de trás do crânio era visível e transparente. Seu cérebro continha um sistema de conexões venosas e massa luminescentes, mergulhados em líquido encefálico. Algo saído de um mundo escuro. Talvez, em algum tempo, fora feito para iluminar com seus pensamentos, mas o efeito agora parecia ser o contrário. Ele nunca vira algo como aquilo, aquele mundo interno pulsando e brilhando com tanta delicadeza e terror. Seus olhos se fixaram no ser, que pareceu se inclinar para frente para observá-lo. Uma onda imensa tentou invadir a mente de Hurricane e ele constatou o que imaginara; o Garpian era um telepata, e havia controlado a todos.
Ele não era um prisioneiro, era uma armadilha!
Enquanto o mobaye tentava entrar em sua mente, sentiu o efeito inverso ocorrer; várias impressões da mente daquele ser passaram por ele como uma onda batendo e dando a volta ao redor de seu corpo, vibrando e mostrando coisas. Os shaprut não conheciam isso. Mobayes tinham telepatas entre eles e aquele Garpian tinha vindo buscar informações. Havia extraído o que havia nas mentes dos que estavam ali e agora tentava se libertar para fugir. Era um tipo de espião, mas algo havia dado errado. O agente não tinha o código que o libertaria da cápsula, então ele pretendia levar a nave consigo para território mobaye, onde com certeza, poderia ser retirado dali. Era o que pretendia quando Hurricane interrompeu a cena. Tudo aquilo durou alguns segundos, o suficiente para o Garpian entender o que ocorria e parar tudo.
-Você é como os senhores de Seraphis. – sua voz vibrou na mente dele, sem hostilidade ou qualquer outra emoção, e Hurricane relaxou os músculos retesados. De quem ele estava falando? Dos chnoubis? O que Chadian lhe fizera além de facilitar a percepção com a linguagem shaprut? Será que aquilo era dele mesmo? Estava confuso, mas não havia muito tempo para pensar – Não é como o outro.
-Outro? Que outro!? Está falando do outro humano, Kober? – Hurricane bateu com o punho no vidro da cápsula e o mobaye permaneceu inalterado.
Nesse segundo outra coisa lhe chamou a atenção e como se tudo aquilo não fosse o bastante, a Hogouss emitiu um alerta de mudança de rota para zona de perigo. Hurricane se virou e viu o agente programando o computador, ignorando o aviso da Hogouss.
-O que está fazendo!? – ele correu até os painéis e viu que havia sido traçada uma rota de salto para dentro de uma nuvem Devoradora de Tempo. Hurricane percebeu que os segundos conectados com o mobaye haviam libertado Muguenat, que agora tentava impedir a fuga do Garpian da única maneira que parecia óbvia; destruir a Hogouss com toda a tripulação já que o mobaye sabia informações demais captadas pelas mentes dali. – O que fez!? Vai nos matar!
-Não há outra escolha! Eu travei a Hogouss. Daremos um salto e vou acabar com esse parasita de mentes. – ele rosnou e colocou as mãos sobre a cabeça ao sentir uma dor terrível. Foi ao chão inconsciente e Hurricane segurou o corpo na queda, virando-se para o mobaye.
-Não faça isso!
-Ele não tem função. Hogouss não pode ser alterada. Iremos ser consumidos por uma Devoradora de Tempo. Esta missão não foi bem sucedida. – falou tranquilamente.
-Mas que diabos! – ele virou-se e observou os controles. Provavelmente nada do que ele fizesse faria aquilo parar e a nave continuava o processo de salto. Estavam realmente prestes a sumir em poucos segundos, desintegrados pelo tempo acelerado das nuvens. Não era um bom modo de morrer, imaginou. Olhou para a paisagem espacial e nem conseguia visualizar para onde iam. Era patético. Ia morrer num lugar que nem sabia como era por uma guerra que não era sua e por informações que nem tinha ideia do que se tratavam.
-Isso é que é azar. Viagem curta, marujo. – falou para si mesmo e fechou os olhos um segundo. Deveriam ir para Forso, não para aquele fim. Uma luminosidade piscou e a nave deu o aviso final para o salto. Deveria estar sentado? Isso importava? Outra luminosidade ofuscando seus olhos fechados.
-Impressionante. – ele ouviu a voz do mobaye em sua mente e abriu os olhos para ver o que o outro estava admirando. Dar um pulo para trás foi inevitável.
-Mas que diab....!!!!??? – ficou pasmo.
Os visores da nave estavam inundados por algo que parecia estar prestes a envolver toda a Hogouss e tinha o aspecto de uma nuvem luminosa que se movimentava com grande sinuosidade. Tão grande que ele nem conseguia ver onde começava ou terminava, apenas preenchia todo espaço à sua frente. A luminosidade que sentira provinha daquilo e ficou mais perplexo ao perceber aquela massa nebulosa atravessando a nave. Num segundo, tudo parou. Hurricane teve a impressão de que a luz era forte demais, mas não feria seus olhos. Toda aquela luz era algo indescritível e pulsava num ritmo fantástico. Seu corpo foi mergulhado naquela espécie de textura delicada e sentiu-se dormente, bem e tranquilo. Parecia estar por todo o seu corpo como algo vivo, mas nada invasivo. Era como se estivesse interagindo com tudo ali, sentindo, sondando. E havia um som... um som totalmente inexplicável. Não conseguia descrever aquele timbre que vibrava dentro dele. Primeiro vinha daquela estrutura, mas agora conseguia ouvir dentro de si também, como se respondesse a ela. Mas o que era aquilo? A Hogouss se movia? Estavam viajando? O que acontecera com o salto? Aquilo era uma nuvem Devoradora de Tempo? Não parecia.
Piscou nervosamente e com a mesma facilidade que surgiu, tudo aquilo sumiu! Hurricane cambaleou para trás e olhou para a nave em silêncio, mas notou algo assombroso. Diante do visor, nada mais da visão luminosa. Agora havia um planeta. Tocou cautelosamente nos controles e solicitou a posição. O sistema informou: “Orbitando Forso 5”.
-Forso!? - Repetiu para si mesmo. Estavam em Forso, no sistema Forso!? Mas há alguns segundos o destino era completamente outro! Olhou para a cápsula e constatou que o mobaye estava ali, mas quando se aproximou parecia inconsciente, como se tivesse sido desligado. Observou o monitoramento das funções vitais e viu que estava vivo, mas por que estava inconsciente?
-Ah... – ouviu um murmurar e olhou para o agente que se sentava devagar no chão. Não estava morto. Ao contrário, voltava a si. Hurricane ajoelhou-se apressado e tocou seu ombro. Ele ergueu a cabeça devagar e olhou tudo ao redor - ...mas o que aconteceu?
- Está aí uma coisa que eu gostaria de saber. Eu não sei como, mas estamos em Forso e seu prisioneiro está sob controle. – ambos olharam para a cápsula.
Dali para aquela sala onde Hurricane estava, no momento atual, muitas coisas haviam ocorrido. Agora tudo parecia uma espera sem fim. Após o ritmo frenético das decisões, assim que pousaram com a Hogouss, havia esse momento onde ele fora colocado isolado. Toda a tripulação estava intacta, como se nunca tivesse passado por nada! E o mais fantástico, o oficial de comando estava vivo! Nenhuma lesão, nada! Lembravam-se da varredura mental, do desmaiar, mas agora pareciam todos bem. O Garpian, que na verdade parecia ser um agente, era mantido em suspensão até que se pudesse encontrar um modo seguro de bloquear suas habilidades. Parecia que tudo ali ocorrera em partes, algumas coisas haviam simplesmente sido revertidas, outras seguiram como estavam. A Hogouss registrara a súbita mudança de rota. Como tudo aquilo aconteceu? Ninguém conseguia entender.
Havia passado por horas de interrogatórios, e as respostas dadas por Hurricane, única testemunha imune ao ataque psíquico do mobaye, foram ouvidas com grande interesse e desconfiança. Sim, desconfiança. Por ser o único a ficar imune ao mobaye tornou-se alvo de perguntas mais cuidadosas e descobriu o que mais temia; seu surgimento coincidia com o desaparecimento da estrela Imakian. Coincidência ou não, sua condição de passar sem ser percebido durou muito pouco. Agora estava praticamente em destaque no meio de uma guerra entre civilizações. Chadian não estava lá, a propósito, os chnoubis não estavam em nenhuma parte. Entretanto o que ele sabia, que ouvira a voz de Chadian chamá-lo antes de testemunhar tudo, ficou guardado para si mesmo. Enquanto ouvia as perguntas feitas repetidamente e de diversas formas diferentes, mas com o mesmo objetivo, ele sempre se lembrava das palavras de seu curioso anfitrião sobre o poder de sua espécie: o medo era um forte impulsionador de ações. Aquilo que podia ser bem-vindo no começo, logo se tornaria fonte de medo.
E Hurricane? Ele agora era visto como um chnoubis. Era disso o que o mobaye falava? Um “senhor de Seraphis”? O que isso significava, e como ele se encaixava naquilo? Havia salvo alguma vida dentro da Hogouss, algum segredo vital? O estranho fenômeno ocorreria com sua presença ou não? O Garpian sabia algo sobre Kober? Ele tinha suas próprias perguntas, mas enfrentara uma bateria de outras, feitas pelo Conselho Regencial. Para todas as perguntas: como você não foi atingido pela influência telepática do agente mobaye? Como a Hogouss mudou de rota? O que era exatamente aquilo que viu? Que tipo de som era o que ouviu? De onde veio sua habilidade? A única resposta era invariavelmente a mesma: não tenho ideia. Hurricane sentia-se a ponto de ser visto como algo muito estranho num ambiente hostil.
Agora, naquele imenso e silencioso recinto ele esperava a deliberação do Conselho. Sentado no chão onde estava, era exatamente onde pretendia ficar. Tentava pensar em como sair daquela situação, quando ouviu um estalo. As grandes portas do salão rangeram um pouco e uma única pessoa passou por ele, sem ser seguida por ninguém. Um corpo jovem e ágil, caminhando com grande resolução, parou diante de seus olhos. Ele ficou uns segundos observando a pessoa diante de si. Uma jovem mulher. Poderia ser uma garota, mas nada era o que parecia ser por ali. Delicada, mas de postura firme. Ainda não tinha se acostumado com o modo dos shaprut se vestirem em terra, dispensando grande parte das roupas que usavam no espaço. Aquela, como as outras, só usava trajes da cintura para baixo, mas ostentava sapatos dourados e joias muito bem talhadas, enfeites para seus kafilates e um belo peitoral. Ouro parecia ser tão popular ali quanto na Terra, mas poderia muito bem ser outro metal já que eles pareciam ter outras variedades de minerais. Sua cor de pele era algo como um tom suave de canela, muito vistoso e os olhos tinham ousadia ao observá-lo sem nenhum receio.




De fato, ela também o observou por um longo tempo, a estrutura, as roupas, o porte, os cabelos - como não? Uma curiosidade natural. Quando sua voz finalmente foi ouvida ele até se surpreendeu. Estava se acostumando ao silêncio.
-Você o viu? – foi a pergunta que ecoou num tom jovem, mas vibrante. Ao contrário dos outros, não disse seu nome. Ficou surpreso com aquela atitude.
-Como? – Hurricane se ergueu devagar e deixou evidente o quanto era mais alto, aproximando-se. Aquilo não a intimidou nem um pouco. Parecia sentir-se uma giganta diante dele.
-Você viu o Omun? Disse que ouviu o som? – falou aquilo com tanta naturalidade que Hurricane quase acreditou que ela tinha certeza de que ele sabia do que se tratava.
-Omun? – ele pigarreou um pouco – Fala do que vi? Aquilo se chama Omun? Você sabe o que é aquilo?
-Todos sabem o que é Omun. Eles só têm medo de dizer em voz alta. Mas você o viu, esteve com ele. É tudo que preciso saber. Ouviu o som?
-Sim... tinha um som...
-Certo. – ela nem o deixou terminar e do mesmo modo que entrou, saiu sem que Hurricane conseguisse entender.
-Que bom que alguém sabe o que está acontecendo... – ele ia segui-la, mas quando ela passou pela porta dois seguranças, bem maiores que ele, entraram e se postaram na sua frente. Entre eles um terceiro entrou e era o extremo oposto dos dois. Alto, magro, mas com uma musculatura marcada, quase um rapaz, com uma expressão muito peculiar. Fez um gesto leve e os guardas saíram.
-Tarias Dannu. – falou num tom firme.
-Jonah Hurricane. Quem é ela? – apontou para a porta.
-Você foi designado pelo Conselho Regencial para ser confinado, por veredicto unânime. Eles querem retirar seus privilégios dados pelos chnoubis, porque não estão certos de que você seja totalmente inofensivo, pelo visto. Querem mais provas. – Hurricane ia protestar, mas o jovem shaprut fez um gesto com a mão para não interrompê-lo – Eu sou um Dannu, terráqueo, e isso me dá o segundo poder numa regência imperial. Eu sou o representante das vontades da imperatriz Kentopaki Tamaris As’Shatiff Danuu, e Kentopaki Tamaris diz: que ele venha comigo, aquele que esteve com o Omun.
-Kentopaki Tamaris! Aquela garota é a imperatriz? – ficou surpreso.
-Kentopaki Tamaris agora o coloca sob sua proteção e você anda pelos passos dela. – Tarias esboçou um leve sorriso que podia ser quase uma ironia. Com o tempo Hurricane ia notar que fazia parte de seu modo de se expressar.
Tinha esquecido completamente que ela estaria em Forso para dar satisfações sobre sua contraordem dada em Imakian. E agora essa! Kentopaki Tamaris o havia colocado sob sua proteção. A imperatriz que perdera sua estrela e estava com seus mundos morrendo. Pensou que podia até funcionar, ambos estavam muito longe de seu lar agora. Começava a entender o que Chadian havia lhe dito. Não havia muitos como ele, mas havia muitos nas mesmas condições que ele.
Só não tinha ideia do motivo pelo qual fora protegido.

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