Contos de SherMor

Su na Tog

“Su...”
“...é como nós chamamos a borboleta.”
“ Para nós, os povos élficos dos Três Círculos dos Mundos Elementais, ela tem um mesmo significado.”
“Morte, transformação e ressurreição.”
“É assim porque os élficos viventes nos Três Círculos não morrem, não exatamente como é a morte para os humanos.”
“Para os humanos a morte é um fim para um recomeço...”
“Para os élficos a morte é transformação. Quando nossas formas, de algum modo são destruídas irreparavelmente, nós assumimos uma nova, muitas vezes mais inferior, esperando a próxima etapa, quando poderemos retomar a forma élfica ou humana, e seguir a infinita jornada.”
“Da mesma forma, os mundos elementais possuem um ponto onde existe grande convergência de poder criativo nos Círculos.”
“Este lugar é conhecido como Lago das Borboletas ou mais precisamente...”
“Su na Tog.”
A primavera parecia especialmente florida naquela temporada. Pelos jardins da fortaleza de Mirza, a princesa Yoma, que representava a estirpe humana, era uma hóspede que, como todos, aguardava uma visita de grande importância. Sua função ali era ajudar a escoltar a criança-oráculo Benôni até Su na Tog a fim de que fosse iniciada.
Uma tarefa que apesar de parecer simples, era altamente arriscada, afinal estavam no mundo de Mirza, no primeiro círculo dos mundos elementais. Um pequeno mundo habitado por élficos e humanos, mas o único lugar onde existia a passagem que levava até aqueles que preservam o pergaminho Sher Mor. Ali havia um mundo dentro de um mundo.
Um lugar cobiçado por muitos mestres negros, do qual se destacava Dahal, “Aquele que forja na escuridão”. Banido da convivência com as raças da criação e impossibilitado de forjar a luz, Dahal criou sua pior obra: os devoradores de mundos. Bilhões e bilhões de formas destrutivas sem consciência criativa, e que, movidos por uma fome eterna, movem-se pelo espaço como um cardume negro consumindo mundos à sua passagem sem nunca parar.
Para impedir a chegada destes devoradores da criação, os sagrados Sherpas preparam os mundos elementares para a grande batalha contra “o vazio” forjado por Dahal e o primeiro passo é estabelecer o elo entre os povos e os Hudayon – os guardiões dos pergaminhos de Sher Mor, o Poder Criativo.
Nesse mundo secreto dentro de Mirza é onde eles se encontram.
Yoma caminhava para o salão real onde, Hiel Aquil Fen, o imperador dos élficos, recepcionaria o primeiro enviado dos Sherpas materializado em seu mundo.
Ela se posicionou discretamente ao lado de Aquil Fen que sorriu com tranquilidade e, em pouco tempo, observaram uma imagem se formar no centro do recinto.
O ser esguio e elegante ostentava trajes sóbrios e uma luva metalizada com uma foice curva engastada nela. Era um guardião, e como tal portava essa arma especialmente forjada para proteção. Independente desta função, sua aparência era suave e seus gestos de saudação, muito discretos.
- , imperador élfico Hiel Aquil Fen. Eu Metarsu, venho diante de ti, enviado por Sherpa Thaon do Terceiro Círculo. Hoje se inicia a jornada para levar a criança-oráculo até Su na Tog, a fim de ser iniciada.
- Nôa Shammon, guardião Metarsu. Estamos honrados com sua presença e felizes por ter a criança-oráculo conosco.
- Eu, Yoma princesa de Mirza, também o saúdo em nome do rei Hudayda dos homens que, sabiamente, compreende a importância da abertura para o oráculo. – a jovem inclinou-se respeitosamente.
- Fico feliz ao ver que os homens têm consciência da necessidade disto. Com o exílio dos elfos negros na nave Tawa sob a proteção de Dahal, aquele que forja a escuridão, logo este atacará os mundos mais desprotegidos. Mais do que nunca, talvez seja necessário trazer os pergaminhos de Sher Mor, o poder criativo, que habita no mundo dentro do mundo de Mirza.
- A criança-oráculo está pronta, guardião. Somente Yoma os acompanhará na jornada até o local conhecido como Su na Tog, como ficou estabelecido. – o imperador esclareceu.
- Aguardarei os preparativos finais que fazem para a jornada. Seguiremos em poucas horas. – Metarsu finalizou.
Entre os muitos jardins da Fortaleza de Mirza, o que Benôni mais gostava era o jardim das cem fontes. Ali, o som da água cristalina produzia uma música delicada que tranquilizava seus pensamentos e permitia sua mente se concentrar com facilidade. Não que houvesse ansiedade dentro daquele pequeno corpo infantil. Sua alma nascera preparada para ser um oráculo e aceitava sua função com alegria. Suas preocupações estavam com aqueles que seguiriam na jornada com ela.
Seus olhos meigos e grandes se ergueram para ver a princesa Yoma caminhar a sua procura.




- Benôni, Benôni?
- Yoma, chegou a hora? Ele veio? - surgiu sorrindo.
- Sim, pequena, ele está aqui e nos aguarda. Está ansiosa?
- A palavra certa é pronta. Hoje caminharei em Su na Tog.
- Não teme as águas de Su na Tog? Dizem que aqueles que nelas mergulham tem seus corpos transformados em borboletas.
- E todos aqueles que morrem e tem seus corpos mergulhados em Su na Tog podem reviver sob alguma outra forma. Eu não temo. Nasci conhecendo minha missão. – continuou - Saiba que mesmo que eu sobreviva à passagem por Su na Tog, perderei a luz dos olhos deste mundo.
- Quer dizer que ficará cega!?
- Quero dizer que não verei este mundo de ilusões, mas verei outros. Os humanos acreditam que a cegueira é apenas não ver o que é paupável. Ashi está muito mais cega do que eu estarei.
- ... – Yoma calou-se um segundo ao lembrar-se da irmã. Quando o rei Hudayda as reuniu para participar-lhe dos fatos, a reação de Ashi não fora das melhores. Ao contrário de Yoma, que compreendia a importância de abrir a passagem para os mundos dos outros círculos, e para o mundo interior, através da criança-oráculo, Ashi acreditava que esse gesto apenas aceleraria uma guerra com Dahal, que segundo ela, nunca antes botara os olhos naquele mundo. Para a intempestiva princesa, abrir a passagem seria o mesmo que chamar a guerra para Mirza. Mas Yoma não concordava com aquilo; era um pensamento simplista. A guerra viria inevitavelmente para seu mundo com o passar das décadas e seria melhor que o portal fosse aberto pelos Sherpas; eles visavam proteger Mirza e seu mundo interior, enquanto Dahal usaria os meios mais terríveis e destrutivos para chegar até os Hudayon – os guardiões do pergaminho de Sher Mor, no mundo interior.
- Ashi estará em nosso caminho hoje. – a pequena previsão de Benôni fez Yoma voltar para o jardim e fixar os olhos na delicada criança que se vestia com graciosidade. Benôni era um uma criança élfica fascinante, mas estranha. Apesar de sua aparência infantil, falava o tempo todo como um adulto e suas palavras tinha um peso proporcional ao seu poder.
- Ela prometeu ao meu pai respeitar a vinda do guardião e não tentar confrontar-se com ele. – a jovem princesa queria acreditar nisso.
- Ela não cumprirá com a palavra dela, mas você cumprirá com a sua. - ela sorriu tranquila e Yoma a olhou, triste.
- Criança-oráculo, espero que sua intuição esteja incorreta. - confessou.
Benôni silenciou-se e lhe entregou uma flor do jardim. “Eu gostaria, mas o que Yoma não compreende é que o poder a ser despertado hoje é o de controlar as passagens que levam aos outros mundos dos círculos, inclusive até os guardiões dos pergaminhos de Sher Mor. Meu dom de prever o futuro já existe.”
Benôni estava correta em sua previsão. Não tardou para que após algumas horas de jornada, o pequeno grupo composto por Yoma, Benôni e Metarsu fosse abordado por um numeroso exército de humanos e élficos, liderados por Ashi. Yoma desceu de sua montaria, muito nervosa, ao ver a irmã liderando aquela emboscada. Benôni também havia apeado, logo atrás de Metarsu que se mantinha em silêncio.
“E como previ, Ashi tenta nos deter.” – foi o pensamento da pequena criança.
- Não quis acreditar quando a pequena falou, mas Ashi tenta nos impedir de levar Benôni até Su na Tog. – Yoma murmurou para o guardião. - Metarsu não pretende fazer nada? - ela olha para Benôni que a fita séria.
- Yoma, se Metarsu mover sua foice agora, todos estes homens morrerão.
- Todos!?
Metarsu tinha um olhar que, num primeiro momento, parecia indiferente, contudo ele conseguia sentir todas as freqüências que emanavam daqueles corpos humanos e élficos e podia detectar claramente um agente estranho entre eles. Dahal já iniciara suas tentativas: entre aquelas pessoas havia um elfo negro transmutado com uma aparência élfica local... um agente de Dahal!
- Só há um a ser atingido por mim, aqui. - ele estreitou os olhos.
- Yoma!!! Você veio com eles, não quero crer! - eles ouvem a voz de Ashi. A jovem princesa se adiantou e apontou para a irmã com seu bastão real.
- Ashi! Como se atreve a interferir desse modo!? Sabe muito bem que o nosso pai...
- O nosso pai está muito velho e não prevê as consequências disto! Este é o guardião? Veio nos trazer a guerra dos círculos superiores!?
- ... - Metarsu observava superficialmente a discussão. Aquilo era apenas uma distração plantada por Dahal. Um teatro para criar uma interferência em sua percepção do todo. Ashi não era o maior problema. Seus olhos sentiram a presença de um elfo parado há alguns passos deles. “É aquele!”
- Ashi, como se atreve!? Ele é um enviado dos Sherpas! E quem são estes que trouxe?
- Aliados! Ou você crê que não existem elfos e homens que sejam contra esta loucura!? - continuou - Seu ritual só nos trará desgraças! Consagrando alguém com a capacidade de abrir a passagem que leva a Sher Mor, aí sim, Dahal olhará para este mundo. Ele virá atraído por Mirza como um íman. Virá e destruirá tudo!
- Está enganada... - ele comenta num gesto rápido e lança sua foice inesperadamente e com tal velocidade que os presentes só conseguiram observar um borrão cortando o ar - O servo de Dahal já está aqui, Ashi!
Yoma vê a foice mover-se na direção de um elfo que saltou no ar com grande habilidade, lançando algo na direção de Benôni. Seu gesto foi o último antes de cair decapitado. Houve gritos de surpresa e Ashi observou confusa a grande foice mover-se como algo vivo, voltando-se para tentar cortar a adaga em dois antes de atingir seu alvo. No caminho a letal arma atravessou três homens de uma vez sem interromper seu percurso. Era uma adaga viva! Programada para atingir um alvo.
- Uma cilada! – Yoma observou tensa e olhou Benôni.
- Como!? Uma adaga viva!? – Ashi não conseguia compreender bem o caminho que a adaga fazia, fugindo da foice, mas o objetivo era claro. Já ouvira falar das adagas vivas e sua capacidade de moverem-se como peixes se movem na água. Era impressionante. - Essa arma não para!
- Agora! - Metarsu ordenou e a foice finalmente partiu a adaga em dois, entretanto, sua ponta ferina se abriu e expeliu um fino dardo numa última tentativa de atingir seu alvo. O venenoso projétil, por fim, se cravou em Yoma, que automaticamente se pôs diante de Benôni.
- Yoma!!!! - Ashi gritou. Os homens permaneceram gelados, observando aquilo.
- A profecia se cumpriu... Ashi tentou nos deter e Yoma me protegeu até o fim. - os olhos de Benôni se fecharam por alguns segundos. Era algo que não poderia ter impedido. O destino de Yoma era protegê-la incondicionalmente e ela não tinha o direito de impedir a escolha da princesa humana.
- Ah...! – Ashi recua um passo. Podia sentir seu coração disparado e suas mãos geladas ao ver a imagem da irmã morta. Metarsu avançou alguns passos depois que sua foice acoplou-se silenciosamente em seu punho e inclinou-se para amparar o corpo de Yoma. Sua morte fora fulminante.
- É tarde demais. Se não houvesse trazido todos estes homens eu poderia ter destruído esta arma com a foice ao ser lançada, mas com todos estes obstáculos você deu o campo perfeito para uma arma como esta agir. Deveria ser mais cuidadosa ao escolher seus aliados. Aquilo não era um elfo verdadeiro, mas um servo negro de Dahal transmutado no corpo de um. - ele a fita com um ar sereno. Em sua voz não havia um tom de repreensão, mas apenas tristeza.
- Estava tão ansiosa por evitar uma guerra, mas foi a primeira a abrir a porta para a morte, Ashi. Dahal a manipulou com seu medo. Ele é mestre nisso. – a criança-oráculo explicou, triste.
- Ah...Yoma...Yoma! Que fiz? Perdão... eu causei sua morte com minha imprudência. Trouxe um assassino de Dahal sem saber! – inclinou-se sobre o corpo da irmã e tocou o rosto ainda quente - Eu deveria estar no lugar dela, mas me recusei. Era eu quem acompanharia o guardião. Agora Yoma está morta. Fui tola ao não reconhecer a sabedoria Sherpa. Agora compreendo que, se virar as costas para o que ocorre nos outros mundos e fora dos círculos, não estarei protegendo Mirza, mas apenas acelerando sua destruição. – cerrou os lábios com força para conter suas emoções, mas seus olhos denunciavam-na com muitas lágrimas.
- Agora você compreende o que Dahal significa, Ashi : inexorável destruição. – Metarsu ergue o corpo de Yoma do chão e caminha de volta às montarias. A jornada ainda não havia sido concluída.
Su na Tog ficava dentro de uma grandiosa montanha, num complexo de cavernas gigantescas que haviam sido modeladas naturalmente e, com o passar dos séculos, recebeu a interferência élfica ao ter suas galerias esculpidas pela arte local. Colunas e abóbadas surgiram para decorar a visão do imenso lago escuro de onde emanavam centenas de borboletas brilhantes: espectros energéticos das almas que por ali passaram.
Benôni observava o imenso lago com uma ilhota no centro e via as borboletas luminosas a voar por toda a parte. Metarsu trazia consigo o corpo de Yoma, e Ashi os acompanhava, em silêncio. Só a eles era permitida a entrada para testemunharem a iniciação da criança-oráculo. A pequena deveria caminhar em direção à ilhota no centro do lago.
- Os espíritos daqueles que aqui mergulharam e deixaram suas memórias vêm me saudar. Que eu tenha poder para caminhar até seu centro, Su na Tog. Auxilie-me Poder Criativo. Que Sher Mor se manifeste para me dar o controle das passagens dos mundos.
Ela fechou os olhos e assim que pisou, iniciou por caminhar sob as águas. Todas as borboletas brilhavam intensamente enquanto a criança seguia incólume dando passos sobre a superfície do profundo lago.
- Ah! Ela pode realmente caminhar sobre o lago! – Ashi observava a cena - Yoma estava certa e eu... errada. - uma lágrima correu pelo canto de seus olhos. Virou-se para o guardião e estendeu os braços - Metarsu, deixe-me levar Yoma em minha jornada. Eu lhe devo isso.
- ... se essa é sua escolha, não posso interferir. - ele coloca a jovem morta em seus braços.
Enquanto Su na Tog recebia Benôni e a abençoava com seu imenso poder, Ashi mergulhou no lago sagrado com Yoma abraçada a seu corpo, mostrando que também estava pronta a assumir o papel que escolheu como uma das memórias deste. Su na Tog lhe respondeu, como sempre responde e Metarsu testemunhou o destino das irmãs; o corpo de Ashi transformou-se numa borboleta que ficou sobre o lago para lembrar homens e élficos da importância de agir com união e serenidade.
Yoma tornou-se uma jóia que veio até as mãos de Benôni. Aquela jóia seria plantada no chão do vale e ali nasceria o “Pavilhão dos Mundos Elementais”, uma construção viva. É ali que Benôni viveria enquanto exercesse sua função como oráculo. Ali Yoma continuaria a protegê-la, sob outra forma, graças a Su na Tog. E Benôni tornou-se o Oráculo dos Mundos abrindo o caminho até os Hudayon.
Os olhos de Benôni, agora brilhavam como as borboletas de Su na Tog e deles emanava a luz dos Sherpas.
- Está feito. Os portais se abrirão e prepararemos os que vierem para antagonizar as trevas de Dahal. Eu estarei aqui para guiá-los... eu os levarei até Sher Mor!
Sorriu.

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